A paixão de Amâncio Amaro

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Conversa Pequena

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Tomada elétrica é assunto? Você já ouviu, em elevador ou sala de espera, pessoas conversando sobre tomadas elétricas? E sobre mitocôndrias? Eu já. Assim que cheguei de Olinda, há muitos anos, ouvir gente falando sobre o trânsito era como ouvir gente falando sobre tomadas ou sobre análise sintática. No entanto, com o tempo, você se acostuma. E comentar o trânsito passa a ser tão natural que você até desenvolve uma opinião sobre o tema, para usar em coquetéis e reuniões de trabalho.

Outro dia, meu grande colega Ricardo Freire escreveu uma crônica brilhante sobre o trânsito. Foi o pódio do assunto. O Riq, que descobre hotéis na Patagônia, que desempacota Nova York e já viajou num jegue cearense por todo o oeste da Índia, não escolheu falar de nada disso, elegendo, em seu lugar, o trânsito de São Paulo. Em vez de achar estranho, achei ótimo. Dei risadas. Já sou paulistano.

Há cidades com assuntos ainda menos prováveis. Numa canoa que desafia o Rio Negro, fala-se de livros de Milton Hatoum como quem comenta a novela. Estive em uma destas embarcações, entre índios com camisas puídas do Flamengo, comendo jaraqui frito. O papo entre os curumins eram os livros do grande autor manauara. Pensei em dizer que também leio o Milton, mas qual a novidade? Ririam de mim. Milton Hatoum é o trânsito da Amazônia.

Em Recife se fala de tubarões. Em Olinda, do preço das coisas. Na Bahia se fala da Bahia, ou seja, de tudo. No Rio se fala se vai dar praia, dos túneis, dos morros. Do perigo se fala pouco. Da Barra se fala muito.

E se há cidades de um assunto só, há pessoas. Gente que só fala de doença, conheço vinte (não reclamo, pior é quem só fala de saúde). Gente que só fala de desgraça, tem vinte e três, minto, vinte e duas (morreu uma semana passada, num terremoto horrível).

Já um amigo tagarela de Ariano Suassuna detesta que falem do que ele não entende. Assim não consegue entrar na conversa. Fica então esperando uma brecha para entrar por onde der, como quem vai a um show sem ingresso e torce para haver cambista. Quando não dá, apela para um truque infalível. No meio do papo alheio, grita de repente: “OUVIRAM UM TIRO?” A mesa se cala atenta, e naturalmente responde que não, não ouviram tiro algum. Ao que o amigo de Ariano emenda: “por falar em tiro, rapaz, outro dia eu estava…” e põe na roda o assunto que quer.

Por falar em trânsito, e esse calor hein?

Passou

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Diante de um lamento saudosista, eu não reclamo. Eu escuto. Em parte por ser, eu mesmo, meio saudosista. E em parte para saber do que os outros sentem falta.

O passado se esconde em átimos, frações. Vive nelas amuado e inteiro.

Ele se esconde nos barulhos. No giz branco bicando a lousa do Colégio de São Bento – a trilha sonora do trabalho lento, do professor escrevendo eternamente o enunciado do dia. Lembro quando o mestre de física preencheu o quadro inteiro de escrita meticulosa. Ao final, gritou: “Não errei uma letra!” Era um momento seu de íntimo prazer, tão intenso quanto banal. Mas a vaidade do professor não permitiu que ficasse restrito a si. Precisou dividi-lo: “É um feito de gênio!” Ao que alguém da turma, um gaiato: “E como o senhor conseguiu?” Destruía-se ali a epifania. E construía-se esta.

O passado mora na batida intermitente do lápis em dias de prova, quando não se escrevia sobre cadernos mudos e sim sobre uma ou duas folhas de papel contra a madeira dura.

Também habita o som dos plásticos. Vários tipos de plástico. A vendedora tornando a guardar as camisetas espalhadas no balcão, cada qual no seu saquinho fino e quebradiço e ruidoso. Outra vez, o som do trabalho. Ou o plástico doce dos classificadores, que a mesma vendedora folheia em busca de algum preço ou código de produto. Ruído rápido e mole, das páginas viradas com pressa pela pinça grosseira do indicador e do médio. Depois manejadas com calma, quando se aproxima a página exata, como uma boca procura outra boca. O plástico com novo som: o mar gordo nos dias sem vento. A praia de São José da Cora Grande, onde se banha a saudade em plásticos de um classificador.

Vive o passado no plástico robusto do teclado do computador antigo, na recepção do hotel na Flórida. A negra atendente, redonda, sonolenta, digitando sobrenomes com a ponta de borracha do seu lápis amarelo. Amarelo americano.

Muito depois, quando minha avó morreu, era o som do Tio jogando Atari para não pensar em nada. O botão do tiro insistente. A TV sem volume no alto da noite infinita. Eu tinha sono e medo de ir dormir sozinho. Fiquei ao lado do Tio, embalado pelo botão vermelho que elaborava um passado.

Até hoje, quando ouço alguém digitar no computador (o trabalho, o trabalho!) vêm estes cheiros de som, armados de prazer, pavor e sono. Acham estranho, pedem explicações. Eu paro e, em vez de dissipar a mágica dos ruídos, deito a cabeça – e me encontro com um garoto mais atento do que eu.

Zzzzzzzz

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Ao final do túnel, há o sono. O último refúgio da diversão. Dormir é bom, é de graça, não tem fila, não faz mal à saúde (se bem que já devem estar pesquisando) e não requer experiência. Não existe coisa melhor. Tudo bem, existe. Mas deixa de ser chato, leitor, e para de pensar em sexo uma vez na vida.

Eis um retrato da alegria: acordar bem descansado, pronto para o dia, e então olhar no relógio do criado mudo e ver que ainda são 3:27 da manhã. Você acordou só para saber que pode dormir de novo. É a melhor notícia que se pode ter no meio da noite. A Disney da preguiça.

Dormir no sofá é ainda melhor. Tudo que é proibido é melhor. Você sabe que deveria ir para a cama, o que imediatamente promove este sono a deleite. Quando eu era garoto, dormia no sofá vendo futebol. Meu pai logo me acordava: “vai para a cama, André!” Por que, meu Deus? Por que castrar justo o prazer inocente (dentre tantos outros na adolescência)? Inventei um truque: ficava no limbo entre o sono e a vigília e, de vez em quando, dizia um palavrão, xingava o juiz, falava “quaaaase!”. Só para meu pai achar que eu estava acordado, vendo o jogo. Hoje é ele quem dorme, mas eu não revido.

Mesmo sendo de graça, existe um sono mais caro do que os outros. É o sono em viagem de férias. Meio dia, o sol raiando lá fora, Paris ou Berlim se exibindo para além das cortinas, e você esnobando tudo isso. Você no hotel. Você dormindo em Euros até as 4 da tarde. Sem falar que, quando você dorme, todo hotel vira 5 estrelas. Uma espécie de Ritzzzzzzzzzz Carlton.

Na linha sonos de luxo, temos ainda o sono-em-peça-da-Broadway: já inclui o preço da passagem, hospedagem e o ingresso. Já testei e aprovei. Só não recomendo A Bela e A Fera, nem O Rei Leão. Estas são ótimas e não se pode pregar o olho um minuto sequer. Mas Les Miserables, que maravilha. Nem do intervalo me dei conta.

Dormir é meu esporte favorito (não deixa de ser uma atividade física, que se executa com o corpo). Dormindo eu volto à infância, abro portas que ligam o escritório à casa de minha avó, perco os dentes, corro de cueca pelo Shopping Center. Faço tudo isso sem manchar a reputação. Mesmo os sonhos ruins são bons: vêm com aquele alívio de quando a gente acorda. Ufa, era sonho. Um alívio só comparado a um copo d’água gelada depois de comer doce de jaca. Mas isso é um outro sonho.

Sujinho Inc.

Publicada no Guia, em O Estado de S. Paulo
Há alguns anos, tive que viajar para os Estados Unidos a trabalho. Ou melhor, tive que viajar a muito muito trabalho. Fins de semana a dentro, noites a dentro. Restou, no meio de tantos afazeres e refazeres, uma única e singela manhã livre. Um sábado nublado.

Usei estas horas para compras. E, também, para tomar café da manhã. Havia muitos restaurantes charmosos, alguns orgânicos, outros metidos a Europa. Em quase todos, famílias ou turistas conversavam nas mesinhas da calçada, no que se costuma achar “clima de férias”. Não entrei em nenhum. Passei incólume por caffè lattes, cappuccinos, frappuccinos doubleshot, grilled lemon-marinated chicken sandwiches e demais seduções. Até que cheguei em frente ao Johnny Rockets, com um néon antigo acima da porta, boa parte das letras apagadas ou piscando repetidamente com defeito. Na varandinha de metal frio, apenas uma pessoa tomava café. Era uma pequena ilha de silêncio, abandonada no meio do vozerio animado dos restaurantes vizinhos.

Entrei neste, é claro. O garçon quase se assustou, chegou a imaginar que eu queria apenas perguntar as horas. Só acreditou que eu era mesmo um freguês quando me sentei e pedi o cardápio.

Quando viajo, escolho comer nos lugares sujinhos de comida local. Felizmente vivemos em São Paulo, onde toda esquina tem a melhor esfiha — conforme dizia um anúncio antigo. Aqui temos sofisticação nos capuccinos do Vienna ou do Starbucks. Temos saladas deliciosas no Spot. Temos o luxo do Dom e do Fasano. Temos o confit de cannard do Le Vin. O que não falta a São Paulo é delicadeza em mesas chiques. O que não tem aqui é um botecão americano com neon velho. Com mesas frias e um imigrante escorado na porta. Isso sim, só lá fora.

Pedi uma promoção de panquecas com ovos, bacon, salsicha, maple syrup e mel. Para beber, um legítimo milk shake de chocolate. Nada de pão italiano, ou queijos franceses com vinho branco alemão. Eu estava nos EUA, e queria os EUA da medula. Comi como um rei. Paguei como um brasileiro: não mais que 10 dólares.

Em Roma, já comi um belo espaguete à bolonhesa num sujinho perto da rodoviária. Em Londres, a boa comida inglesa está nos Pubs — junto com os peões de obra, os taxistas e os bancários. A comida elegante e sofisticada não pertence a um lugar, pertence ao mundo. Esteja este mundo em São Paulo, Barcelona, Paris ou Nova York.

Ser ou não ser

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Disse Pablo Neruda: “minha conversa é uma árvore com galhos demais”. A minha, não. E um dos poucos galhos que me resta vem justamente dar em Belchior: assunto batido e aparecido. Paciência. Guardei secretamente o tema, achando que nunca teria razão ou coragem para trazê-lo aqui. Quis o galho falar nele. Falemos.

Sempre gostei de Belchior. Mexeu com ele, mexeu comigo (mas sem vídeo no YouTube, por favor). Belchior, para mim, é um sujeito em paz consigo mesmo (algo que invejo sempre que posso). Ao ouvir suas letras, fico com a impressão de um caso resolvido: Belchior quer ser Belchior. Nada de Chico Buarque ou Tom Jobim. É amigo de um analista, e isso basta.

Em uma de suas canções, ele diz: “deixando a profundidade de lado…”. Para ele, sua canção é profunda. Não Kant, Kierkgaard nem Nietzsche. Mas o conselho do analista amigo dele. Com um piparote, Belchior deixa tudo isso pra lá. E vai ao que interessa: “ficar colado à pele dela noite e dia”.

Certíssimo. E eu cá, lendo as mesmas coisas em versões tão mais complicadas. Para quê, meu Deus? Tanto trabalho, quando um piparote resolve.

Belchior é o Ceará da minha infância, quando tudo era simples. É um homem sujo, todo sujo, mas de batom. Que traz coisas sem jeito no peito, mas acha bom. Um homem de bem com sua própria medida. Assim eu via Belchior, e assim o inventei para herói.

Até que um amigo de trabalho criou, há alguns anos, um comercial de feirão de automóveis. A ideia era mostrar pessoas que haviam saído da mídia, mas ressurgiam para ver as ofertas. Gente como Biro Biro, Fofão e Ferrugem. O locutor dizia: “preços tão bons que até quem andava sumido vai aparecer”. Isto em 1999. Consultaram Belchior para ver se topava fazer um dos comerciais. Sua resposta foi um NÃO em maiúsculas. Ficou irritado: nunca esteve sumido! E podia provar: citou shows agendados no interior do Norte do país.

Quando eu soube da história, fiquei triste. Então Belchior tinha vaidades. Tinha ambições, e uma vontade maior do que o destino. Como ele mesmo diz: “teu infinito sou eu!” Meu Belchior! Então minha versão não era real, mas tão somente uma miragem, fantasia do conforto: ser menos, ser quem se é.

Agora Belchior sumiu de novo. Mas não sumiu. Nunca sumiu! Minha ilusão está confusa como Vanuza. Também troco a letra do meu hino, sou um rapaz latino. Americano. Tenho medo e prazer de ser como Belchior: o infinito — ao alcance das mãos.

Eles voltam

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Os fumantes voltarão. Não se anime, caro leitor, a comemorar seu ar mais puro. Os fumantes voltarão.

Antes, eles não tinham causa ou método que unisse a classe. Era cada um por si, baforando sem união nem sentido do coletivo (palavra bonita, coletivo. Está se usando). Agora, encontraram um inimigo comum: o teto. Onde tem teto, não tem fumante. Até marquise os espanta. Em lugar de dissipar, a medida deu agenda ao grupo. Topa-se com eles nas ruas e calçadas, tramando como locomotivas urgentes.

Em suas reuniões relâmpago, têm a chance de debater os ataques à categoria, comentar esta segregação aplaudida nos jornais. E percebem o impacto que suas escapadelas têm nas empresas onde trabalham. Eis aí o principal aliado dos fumantes: a força do capital.

Podem unir-se às lavanderias, que perdem parte do faturamento com nossas roupas livres da fumaça, cheirando bem por dias a fio. Todo um segmento comercial ameaçado. Um terno frequenta a semana inteira de festas, reuniões e barzinhos sem ir para o tanque. Lavanderias no prejuízo: o primeiro aliado dos fumantes.

O segundo é Alberto, do RH. Um rapaz ambicioso, magrinho, que já está calculando quanto as empresas perdem com seus fumantes descendo até a rua durante o dia. Tomando elevadores lentos, enfrentando filas de fumódromos. Os cálculos de Alberto estão avançados, em breve a FIESP vai receber o dossiê do dinheiro que o mercado queima tirando funcionários que fumam dos seus postos de trabalho. “Dinheiro que o mercado queima” e “postos de trabalho” são expressões do Alberto. Esse vai longe.

Outra possibilidade descoberta pelos fumantes é o ramo imobiliário: andares baixos para alguel comercial. “Vão aumentar de preço” diz um companheiro empolgado. “Antes só andares altos eram valorizados. Agora os de baixo também serão: dá pra ir fumar pela escada”. “Escada?”, grita outro. “Com quê fôlego?” O grupo logo rejeita a ideia do companheiro, um pelego de apenas dois cigarros por dia.

Os fumantes também se sentem mais protegidos da gripe suína: ficam menos tempo em ambientes fechados. O problema é que já aparecem hipocondríacos se passando por fumantes apenas para saírem do ar viciado dos escritórios. O grupo já aprendeu a identificá-los nos encontros: usam alquinho o tempo todo e o cigarro está quase sempre apagado. São expulsos a baforadas cancerígenas, pois podem espalhar dados sigilosos dos planos. E aí o mundo estaria de vez nas mãos dos não-fumantes. Também, com tantos dedos livres.

Palavreado

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Escrevo esta coluna enquanto o Sarney está “firmíssimo”. Agora que você a lê não sei em qual superlativo ele se encontra. “Firmíssimo” marcou a semana, do mesmo jeito que “suína” marcou as férias, “fanfarrão” marcou um filme e “mensalão” marcou um Marcos. Há palavras que guardam mais memórias do que perfume ou música.

Se você lembra de “escamoteia” e “camufla” na mesma frase, você tem mais de 30 anos. E a interjeição “cacildis!” deve trazer um sorriso de saudade. Saudade forevis. Por falar em passado, eu nunca apostaria que “mulato inzoneiro” ia ficar para a história, principalmente porque veio nos braços de uma canção popular. Quem diria, “inzoneiro” virar popular no mesmo país onde “imexível” é palavra de ministro.

Em Olinda, “total” serve para tudo.
— E aí, gostou do filme?
— Total

— Vai hoje para a faculdade?
— Total, meu irmão

— Que pôr-do-sol, hein?
— To-tal!

Outra palavra que denuncia o Olindense e vale mais do que um RG ou passaporte é “saca”. Lá ninguém lembra ou conhece, é tudo saca. “Saca Chico Science?”, “Saca aquela música, velho?” E a resposta, invariavelmente, é: “Total”.

São Paulo é “balada”, “bacana”, “desencana”. Tanto quanto o Rio é “maneiro” ou “sinistro”. São palavras que marcam terreno. Elas também podem definir pessoas: quem diz “hiper” em vez de “super”, por exemplo. Eis algo revelador. “Mega” é uma alternativa, mais moderna, veio depois do computador. Mega e super são pessoas mainstream, mas hiper é alguém que gosta de atrair um pouquinho só a atenção para si. Como chamar “site” de sítio.

“Anyway” é outra. Podem dizer anyway à vontade, mas eu acho esquisito. Houve uma época em que também se chamava ketchup de ketcháp. E tem gente que fala as coisas sem realizar, ou seja, sem perceber. Eu realmente não gosto de quem realiza em português com o sentido em inglês. Ou assume em lugar de supor. Mas, não posso implicar. Eu digo “ême tê vê” em vez de “ém ti vi”, e não por afetação ou para ser cover do Caetano. É que a MTV chegou ao Recife em anúncios de jornal. Antes de ouvir MTV, eu li MTV. Achei que era assim que falava e tive vergonha de mudar.

Eu reparo quando amigos passam a usar palavras que aprenderam recentemente. Você nota o esforço. De uma hora para outra, começam a dizer “não bom” em vez de “ruim”. “Vai chegar atrasado? Não bom, não bom”. De onde saiu isso? Quando é expressão corrente, a gente pega que nem gripe, tudo bem. Mas “não bom”? Depois de adulto? Anyway…

Acquired taste

Publicada no Guia, em O Estado de S. Paulo
Eu me lembro do dia em que vi numa fachada de uma loja chique em Nova York o nome “Ermenegildo”. Era minha primeira vez em NY, e a primeira vez que via também esta marca. Pensei num paraibano que venceu na vida. Depois vi que devia ser italiano: Zegna (que, no Recife, se chama Zéguina, independentemente da classe social).

No Ceará, eu vi o Homem do Fundo do Mar. Naquele episódio do seriado, o vilão comia uma noz pequena, que abria com os dentes, e jogava fora uma casquinha. Fiquei com vontade de comer aquilo mas no Ceará não tinha. Nem eu sabia o que era. Como solução, passei a comer castanha de cajú jogando fora metade, para imitar o vilão. Vinte anos depois, em São Paulo, fui a uma festa. Peguei um pistache para conhecer o gosto. Ao colocar um na boca e mastigar, percebi que havia uma casca dura por fora, que deveria ter sido retirada antes. Minha memória disparou: Ah, então era isso que o vilão comia! Com vergonha de perguntar onde era o banheiro para cuspir fora a casca quebrada, resolvi triturá-la totalmente antes de engolir, com medo de que, se deixasse pontas, elas podiam me perfurar o estômago.

Na mesma festa, vi umas bolinhas laranjas sobre torradas. Perguntei ao garçon o que eram. Caviar…, ele disse. Caviar!!!, pensei. Comi um. Detestei. Mas é de peixe? Vem do mar? O garçon, com grande paciência e compaixão, me explicou. Era meu conterrâneo, mas agia como se houvesse progredido além, muito além, do sotaque.

Hoje sou fã de pistache salgado, e continuo detestando caviar. São Paulo também me apresentou à rúcula que, numa fase triste da vida, era uma das melhores coisas que a cidade tinha me mostrado.

Viver aqui é ir sofisticando o gosto. Harmonizar cerveja, saber a diferença entre as uvas de vinhos, preferir uma delas, saber comer sushi e pronunciar os seus nomes com um bocejo. Tudo isto pode se fazer em São Paulo sem ao menos se dar conta. Não consigo notar as diferenças entre os vinhos, e consulto a coluna da direita muito mais do que o Sommelier. Ela sempre me dá bons conselhos, e quase nunca surprende com notas de ousadia e impetuosidade quando vem a conta.

Meus pais chegam do Recife e penam um pouco com estas sofisticações. Aqui tudo é chique. Do menu do Frevinho ao buffet do Viena. Quando saio para passear com eles, vejo o quanto aprendi — e o quanto gastei para aprender estes refinamentos. Ao fim de tudo, elegância é vestir de Zegna o Ermenegildo que vive em cada um de nós.

Ponto de vista

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Sou míope. Mesmo semicerrando os olhos, o mundo não define seus contornos. Quem roubou o meu foco?

Quando criança, não enxergava direito as bajulações que me faziam. Nunca fui o gênio alardeado, era apenas filho único, primeiro neto e primeiro sobrinho. Cada sílaba minha, um espanto. Quanta distorção.

Depois, não vi o branco da bola se aproximando no primeiro treino de futebol de campo no Colégio de São Bento. Eu era goleiro: queria ser. Apareci todo arrumadinho, as luvas azuis combinando com a camisa estofada no peito, calça preta e chuteiras novas. Entrei em campo, dei leves chutes e tapinhas em cada trave, medi os passos entre elas, cisquei a terra e me benzi. Os meninos pensaram: esse entende. O primeiro chute passou por debaixo das pernas.

Mais tarde virei Dasayev, o grande goleiro russo. Ideia dos meus primos. Não vi que era apenas para quebrar o braço em saltos impossíveis.

Também não vi que levava jeito para escrever, desde o jornalzinho da família que fazia na máquina do meu pai. Fui querer desenhar. Anos depois, ao me ver rabiscando com dificuldade, um colega de trabalho comentava com a ironia a escorrer nas palavras: “que traço solto, olha!”

Não tenho facilidade em enxergar a hora de ficar calado, ou de dizer o que me ocorre. Como sou míope, enxergo com clareza apenas quando o momento está perto demais e não dá para reagir. Se fosse hipermétrope, de pouco adiantaria: só enxargaria melhor na distância – quando já é tarde e muito depois de tudo haver passado.

Em Olinda, via o mar. No Recife, via o beco. Em São Paulo, enquanto a vista não se acostumava, o que se destacava na paisagem eram o peixe fora d’água, a praia distante, o céu oferecido apenas para quem decide levantar a cabeça.

Quando a gente está apaixonado fica bom da vista. São Paulo se curou. Casei. Hoje, a vista que tenho é um terreno preto de noite, onde as luzes das casas são estrelas que as nuvens deslocam do céu.

Mesmo apaixonado, não sei ainda ver as notas do violão, a utilidade de ser vaidoso, quem faz o quê em campo, o fascínio de certos livros, a medida exata, porque fazer certas coisas (e o custo de fazê-las), não sei ver o tamanho da paciência, o limite das cobranças, se vai chover, as horas perdidas, a beleza da ópera, a graça de certa gente, o não embutido no sim, onde deixei a chave das coisas.

Sou míope. E — prova da minha miopia — achei que usando óculos resolveria o problema.