Fui




Última coluna, publicada no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em 19 de abril de 2013

Passaram por esta página o meu Tio Vivi, que falava em silêncio, pronunciando reticências; o taxista que apanhava folhetos no trânsito para livrar mocinhas da prostituição. Passaram o mendigo cujo tesouro era uma carteira de identidade, e o louco da Paraíba que achava ser um relógio. O artista que escrevia cardápios e criou imagens lendárias como o sashimi de frutas, seguido de um preço também alucinado.

A cidade de São Paulo, prima de Johanesburgo, Tóquio e Recife. Seus bares, restaurantes e avenidas. Como a 23 de Maio, uma via do signo de gêmeos: dupla, imprevisível e volúvel. A avenida Paulista, coração da cidade que viveu na Ipiranga e mudou-se aos sobressaltos para a Berrini. Por onde anda o coração de São Paulo nesse trânsito parado, meu Deus?

Passou aqui a ponte aérea, na qual executivos tiram férias de quarenta e cinco minutos, livres de celulares e urgências terrestres. A casual friday, tirando dos homens o terno cinza que lhes esconde a alma e solta os tucanos em espalhafatosas camisas. O carnaval e a quarta-feira traída, pondo fim às coisas enquanto fica cravada em pleno meio de tudo. As sete ondas de janeiro.

Esteve aqui o filho único, sua angústia maior e secreta: a generosidade (não o egoísmo) de satisfazer a expectativa alheia em lugar da própria. Esteve com ele o dentista, que monologa com pacientes boquiabertos, preenchendo de respostas suas próprias perguntas.

Passaram por aqui o medo, a piada, o pitoresco e o medíocre. Poetas e patetas, dos quais o maior me acompanha, implacável e míope, atrás dos óculos.

Não gostei de tudo, pois não há que se gostar do chão. Benditas sejam as nuvens e suas ambições de algodão. Bendito seja o mar escuro, onde se escondem monstros, naufrágios e medeias. Mas dane-se o meu chão. Chão do meio, inerte entre a música e o grito. Chão morno, chão frio. Planta sem raiz, avesso da planta: pé.

Passou por aqui também o silêncio das coisas que quis cantar e não pude — por não saber cantar, e por não saber que existem. Tudo isso passou por esse jornal que há nove anos me inventou cronista.

Hoje, sem muito mais a dizer, quem passa sou eu.

MANIAS




Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em abril de 2013

Durante anos morei sozinho num apartamento na Bela Vista. Era tão pequeno que só cabiam móveis de duas sílabas. Estante não tinha, cadeira também não. Bem dizer, era um vão. Donde veio o nome da festa que dei para inaugurá-lo: Vão lá em casa.

Mas o que não cabia de coisas cabia de manias. Morar só é regar nossas esquisitices com a água da impunidade. Desenvolvi várias, que cultivava com secreto orgulho. Anotava todas num caderninho (eis uma delas) para depois comparar no natal com as manias de uma tia, solteira profissional.

Encabeçando a lista vinha esta: ao sair de casa, eu fechava a porta mas não trancava. Ia até o elevador e apertava o botão para chamar. Em vez de ficar esperando, eu voltava até a porta para passar a chave. Com isso, dava uma utilidade aos segundos que seriam de outro modo desperdiçados na espera.

Outra era abrir a torneira quente (não tinha misturador) no fluxo exato para conseguir ensaboar e enxaguar as mãos antes que a temperatura ficasse escaldante — mas estivesse morninha, quase quente.

Girar repetidas vezes a faca carregada de requeijão, e fazer com que chegasse até a cream cracker sem que uma gota de queijo respingasse na mesa.

Acertar a almofada no interruptor da parede para apagar a luz sem ter que levantar da cama.

Servir água no copo com a geladeira aberta a tempo de pegar a porta já fechando mas com espaço suficiente para guardar a garrafa, tirar a mão já meio de lado e escapar por um triz pela fresta que se extinguia. Depois saborear a água junto com esse feito de sincronia, um 007 versão Minalba.

Descobrir o ponto cego na parede onde se pode vestir as calças tranquilamente sem ter que fechar as cortinas. Saber chegar nu a esse ponto cego sem pagar mico.

Calcular onde pôr um copo na pia para que, ao se ligar a torneira, a água acerte direitinho o interior do copo sem respingar na pia.

Quando dominei a arte das manias, perdi todas: mudei do apartamento, casei, tive um gato e duas filhas. Mas quando todos já foram dormir, eu me pego pensando nas loucuras que eu fazia quando era solteiro. Ah, se aquelas paredes falassem.


Te diz


Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em março de 2013
Para Tide

Um cursor piscando na tela. É o pulso do desejo, das promessas e do medo. Tudo é possível para o cursor que acena, vai e vem, diante do olhar branco de quem vê.

O cursor não altera seu ritmo, por mais desvarios que lhe venham à mente. O cursor pisca, serenamente. Some e volta, torna a sumir. Como se fosse ao infinito buscar notícias e, diante do assombro que viu na rápida viagem ao porão da noite, viesse à tona para nos rever e se despedir. Olha fundo em nossos olhos, desiste, afoga.

Para onde vai o cursor que pisca? Que arco-íris ele salta, que culpa o faz voltar? Que sabe ele da morte, do perigo de se dançar quando há na sala uma só cadeira para sentar?

Nunca veio resposta. Quando ele corre deixa um rastro do que foi dito em silêncio. Então se arrepende e retorna comendo. Como come esse cursor, se empanzina de meus erros e enganos. Errar engorda; mas o cursor é magro de ruim.

Cursor, porta-voz dos orixás, me traz a verdade quando voltar. Pede um favor para Iemanjá. A cada pedido ele avança uma letra, vai carregando nossos ouros, nossas dores e espelhos para dentro bem dentro do seu mar cristalino. Dona Janaína o recebe com alegria, e toma para si as poucas pérolas. O que ela rejeita o cursor devolve, deixa os restos boiarem na flor branca da página. No dia seguinte, os pedaços tristes vem dar na margem e mostram trechos desconexos do que foi uma festa. Só o cursor sabe. E nada diz.

Pergunto dos mistérios do lado de lá. Diz, cursor, das coisas que estão por vir. Como é que elas são? Ele foge, parece que agora foi decifrar, e surge de mãos vazias lá do meio do meu alvoroço.

Mas o pensamento é um vento que atina em outro lugar. Quando roça na tecla, o vapor se condensa. Nesse país remoto, diáfano, profundo, que nem os sonhos conseguem mostrar, encontra o cursor com a brisa. E vem navegando, vem enfunado pela viração da asa de uma abelha, vem vencendo sereias, cuidando que a vela não rasgue na luz, vem trazendo o que a concha mandou guardar. Quando eu quis saber quem eu amo — só pra te dizer — o cursor soprou o teu nome. Lê.




Maria



Publicado no guida Divirta-se em O Estado de S. Paulo em março de 2013

O jornal Washington Post fez uma experiência no metrô da cidade. Um dos melhores violinistas do planeta estava em turnê na capital e a experiência era a seguinte: Joshua Bell tocaria incógnito seu violino numa estação de metrô. Um boné no chão recolheria as moedas.

As poucas pessoas que deram algum troco sequer pararam para ouvir. Quando Joshua guardou seu violino (que valia três milhões e meio de dólares) não houve aplausos.

Eis minha experiência no metrô de Londres, anos atrás. Estava de férias e já subia a escada para atingir a rua quando me dei conta do tema que vinha de um sax (na época, Kenny G povoou de saxofones as estações de metrô mundo afora). A canção que chegava a mim não era Kenny G. Era algo suave, que reverberava na memória. Memória antiga e afetiva. O que tocava era Manhã de carnaval, de Antônio Maria, meu conterrâneo. Um autor recifense enchia os ares do metrô de Londres. Desci as escadas correndo. O saxofonista era alto e ruivo, dificilmente seria brasileiro. Fiquei ainda mais comovido.

Ouvi a música até o fim. Depois, agradecendo a honra, coloquei dez libras em seu chapéu. Ele não acreditou, e achou que eu havia me confundido ao dar uma nota de valor tão graúdo. Gesticulei que não, e segui adiante orgulhoso do talento de minha aldeia.

A ilusão durou décadas, e manteve-se intacta até anteontem. Eu passava entre os computadores do escritório quando ouvi o que vinha do monitor de um colega: a introdução de Manhã de carnaval. Voltei sorrindo e já ia contar o antigo episódio do metrô quando entrou a voz. Sim, era A voz: Frank Sinatra, cantando em inglês. Então era isso. O ruivo magrela não conhecia Antônio Maria coisa nenhuma, e tampouco sabia da existência de Recife ou mesmo do Brasil. Conhecia era a versão americana. Ele tocou Frank Sinatra e eu paguei por Antônio Maria. Na mesma hora tive pena das minhas dez libras.

Enquanto a experiência do Washington Post rendeu um prêmio Pulitzer em 2008, a minha rendeu uma bestagem. O título americano da canção, aliás, é uma carapuça. Chama-se A day in the life of a fool.

Vingança




Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em fevereiro de 2013

Minha companheira de viagem viu a placa e gritou: “Proibido!”. Estávamos chegando na Holanda, onde pouca coisa é proibida. Ela leu a placa e se emocionou. “É quase igual ao alemão. Só que é ‘verboden’ com D e não T”.

Mais adiante, quando eu curtia o vai e vem do ônibus, acordei com outro grito: “Farmácia!” Como fosse ela hipocondríaca, achei que ia descer e fazer compras. Mas não. “É quase ‘Apotheke’”, ela disse. “Mas termina com ‘eek’”.

Ela havia estudado alemão fazia anos, e quase chorava toda vez que reconhecia uma palavra em holandês. 17 palavras e 17 gritos depois, perdi a paciência. Perguntei se ela já não percebera que as duas línguas são parecidas. Para mim a conclusão era óbvia. Ela irritou-se com minha frieza e, a partir dali, dava apenas soquinhos silenciosos no ar cada vez que entendia um letreiro.

Vinte anos foram precisos para que esse prato esfriasse, e eu comesse a vingança que o destino preparou com cuidado. Estava eu agora em Barcelona jantando frutos do mar ao ar livre, no Porto Olímpico. Numa longa mesa ao lado, uma festa de casamento. Noivo inglês, noiva catalã. Durante horas fiquei observando os ingleses tentando agir naturalmente, isto é, como seres humanos dotados de emoção e alegria. Os catalães berravam, abraçavam, choravam. Os ingleses bebiam, e imitavam bem. Foquei particularmente num gordinho britânico. Ele fingia um savoir-faire tão legítimo que a expressão continua melhor em francês.

Três dias depois eu já estava de volta a São Paulo. Fui tomar uma Guinness no único pub que servia a bebida na época: o O’Malley’s da Alameda Itu. No meio da cerveja, olho o balcão e não acredito. O gordinho inglês de Barcelona! Não podia ser. Mas eu lhe dedicara horas de fina observação, como poderia me confundir? Olhei de novo. Era! Mas não pode ser. Mas era. Fui lá.

“O senhor não estava, três dias atrás, no Porto Olímpico, em Barcelona?”, perguntei. Ele me olhou como se olha uma porta. “Sim”, disse secamente. Eu comemorei: “Isso é incrível! Eu também! Eu também! Estava na mesa ao lado, e agora estamos em São Paulo, o senhor nem aqui vive...” Ele me interrompeu, sem espanto: “Sim. Chama-se coincidência”, pagou e saiu.