Ciúme
Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em fevereiro de 2012
Há ciúmes de mulher, ciúmes de amigo e
ciúmes de cunhada. Esta é uma história rara. É sobre ciúmes de um jornal.
Foi há muitos anos, quando o jornal de
domingo de Londres só chegava em São Paulo na quarta. O Sunday Times era
grosso, com três revistas encartadas e uma impressão impecável. Eu babava para
ler o caderno de cultura, com anúncios inteligentes e notícias frescas do mundo
das artes (naquele tempo, três dias não faziam notícia cheirar mal. Não havia
internet).
Mas nada disso estava ao meu alcance,
embora o exemplar estivesse na mesa ao lado da minha. Pertencia ao meu chefe e
eu, reles discípulo, não estaria ao nível de ler o mesmo jornal. Ou assim ele
dava a entender.
Corrigi a injustiça: em segredo, eu ia na
mesma banca e comprava meu exemplar. Tinha o cuidado de ir depois do chefe,
para ter certeza de que o dele estivesse garantido. Se sobrasse um, eu levava.
Às vezes, de brinde, ele me contava uma notícia que lia no Sunday Times. Eu
fingia surpresa para não dar bandeira.
Os colegas me chantageavam: davam prazos
exíguos para minhas tarefas e, caso eu não cumprisse, revelariam ao chefe meu
esquema do jornal. Um dia falhei, e o chefe recebeu uma carta anônima. Não
gostou do que leu.
Para me vingar, juntei uns amigos e criamos
um bloco com o nome do chefe para o carnaval de Olinda, boneco gigante e tudo.
O estandarte era o brasão do Sunday Times em cores berrantes. Murilo, meu
chefe, detestava festas populares.
A Troça Carnavalesca Mista O Murilão Fogoso
tinha hino, hall da fama, camisetas e energia. Só não tinha boneco, pois o
bonequeiro sumiu com o dinheiro sem jamais dar notícias. Tiramos muitas fotos
do bloco por ladeiras suadas de Olinda, que surgiram misteriosamente na mesa do
chefe. Ele adorou. Mas escondido.
Guardei minha camiseta do Murilão até outro
dia, amarelada e sorrindo. E, por brincadeira de Momo, quis o destino que eu
conhecesse este mês o editor do Sunday Times, 16 carnavais depois. Conversamos
muito e, claro, contei do bloco de carnaval. O editor achou a ideia
divertidíssima.
Assim como o boneco que não saiu, a notícia
também não apareceu no jornal. Mas o Murilo está, oficialmente agora, instalado
em sua história.
Cartas
Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S Paulo em fevereiro de 2012
Descobri um
jeito de encher o saco dos amigos à distância. Escrevo cartas. Não são cartas,
mas e-mails longos, do tamanho de cartas. Por enquanto, escolhi poucas vítimas.
Duas delas responderam curtamente e só depois de mais e-mails meus cobrando
resposta. Eu encho mesmo.
Chega então a
questão: o que contar nesses e-mails? Acabo de ler no Facebook (o editor me
pede que esclareça aos leitores vindos de Marte: Facebook é uma rede social
hospedada na conhecida rede mundial de computadores), acabo de ler ali que um
amigo comeu um sanduíche de presunto. Vi a foto. Outro avisa que curtiu o clipe
do Michel Teló. E assim chegam notícias de todos a cada passo de suas vidas.
Não sobra muito para as cartas.
Acontece que li
um livro (o editor pede que esclareça aos leitores mais jovens: livro é um
códice. Códice é um Kindle off-line) mas ia dizendo: li um livro com cartas do
Otto Lara Resende quando ele vivia na Europa. Deu vontade de ser Otto (já quis
ser Oscar Niemeyer, Caetano Veloso, Tom Jobim, Quino, Al Hirschfeld e Alécio de
Andrade). Não tendo o talento do Otto, quem sabe poderia ter as cartas. Passei
a mandar os e-mails, que chegam rápido e não me obrigam a comprar selos. Contei
tudo, e mais um pouco. Por mais trivial que fosse o detalhe, ou mais longo e
desfocado que fosse o parêntese, eu não censurava. Carta é carta. Condensei em
meus e-mails dez páginas de atualizações de Facebook e suas banalidades,
cuidando para não cair em literatices nem fazer pose de sub-mineiro. Mas parei.
Faltou-me também
disposição. Ser Otto não é para qualquer um. Ele chegou a ir à embaixada aos
sábados só para escrever carta. Outra vez, a filha com febre, querendo dormir,
e ele sapateando na máquina de escrever pela noite. Eu, que digito em silêncio,
devo uma missiva a um amigo do Rio, como os amigos do Otto deviam a ele.
Mas essa dívida
eu pago. Dar conta da vida está mais rápido e fácil, e mais complicado. Há que
se atualizar o Twitter, o Instagram, o Facebook, o Linkedin (o editor pede, mas
dessa vez mando todos ao Google. Ah, sim: Google é o taxista do seu computador,
sabe de tudo). Mando o e-mail ainda hoje. Nem que seja só o P.S.
Para ninar
Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em janeiro de 2012
Para Rosa e Anita
Papai, conta uma história. De livro ou de cabeça? Cabeça.
Era uma vez um homem (como era o nome dele?). Calma, menina. Presta atenção. Era uma vez um homem que foi à Baixa do Sapateiro e lá encontrou a morena mais linda da Bahia (como era o nome dela?). Escuta, menina. Ele pediu um beijo. Ela não deu. Pediu um abraço. Ela sorriu. Quis casar. Ela fugiu.
O homem ficou triste. Foi pedir ajuda ao Senhor do Bonfim. Cobrou que ele arranjasse outra moça igualzinha (existe moça igual?). Não, mas ele queria. O Senhor do Bonfim mandou procurar na Lagoa do Abaeté, um lugar lindo de meter medo (tem tubarão?). Não, é lagoa. Mas muito escura, arrodeada de areia branca. O homem passou a noite procurando. O luar prateava tudo, era fácil enxergar. Mas mulher nenhuma o homem não viu, só a lua na noite clara como dia. Depois de muito buscar e nada encontrar, o homem ficou bravo com o Senhor do Bonfim.
Foi descansar em Itapuã. Passou lá toda a tarde, com o olhar esquecido no encontro de céu e mar. Bem devagar foi sentindo a terra inteira rodar. E teve uma idéia. Por que não pedia ajuda aos seus amigos de lá? “Areia de Itapuã! Areia!”, ele chamou. A areia veio aos seus pés. E trouxe com ela as pegadas de uma morena. Seria a sua? O homem chamou por outro amigo. “Coqueiro de Itapuã! Coqueiro!” E os coqueiros balançaram, e abanaram, e trouxeram o vento. Junto com o vento, veio um perfume raro: o cheiro doce de uma morena. Era ela! Só podia ser.
O homem pediu a outro amigo: “Ô vento que ondula as águas, me faça um favor: jogue uma flor no colo da minha morena, ó vento de Itapuã”. Na mesma hora o vento tomou uma papoula, e a levou pelos ares. Subiu, subiu, subiu. O tempo passou. A noite desceu, desceu, desceu. A lua surgiu no céu escuro como as águas do Abaeté. Naquele instante, tudo seu deu.
“Já sei”, ele disse. E de fato sabia. O homem viu que pousava na lua refletida no mar a flor que o vento levava. Era isso! Sua morena encantada era o luar da Bahia. Redonda; clara como o dia. Por isso não deu o beijo, mas um sorriso. Quem nunca viu a lua sorrindo, bem fininha, no alto do céu? (eu já!) Eu também. O Senhor do Bonfim sempre acerta: conhecia que a lua estaria se enamorando nas águas do Abaeté. Agora ela voltava, com sua flor boiando nas ondas — presente de Iemanjá.
O homem mergulhou no mar. E no espaço sereno, sem ontem nem amanhã, dormiu nos braços morenos da lua de Itapuã.
Spot
Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em janeiro de 2012
Eu não fui mas estava
lá. Se nunca faltei, não seria agora. Por mais de 10 anos, as noites de
quinta-feira me encontravam irremediavelmente jantando à mesa 31, encostado no
vidro. Guardo até hoje uma das plaquinhas de cartolina: Reservado - Murilo. Não
me chamo Murilo, bem que eu queria.
Claro que não faltei à
festa de aniversário do Spot, mesmo não tendo ido. A noite criança fez 18 anos;
noite maior. Fui carregá-la nos braços. Sem ter ido, vi o Sérgio chegando com
seu sorriso de quem acabou de fazer o que não devia. E respondi, como sempre, à
sua pergunta eterna: “estava tudo bem?” Sérgio não quer saber como vai, mas
como foi. Tudo bem, Sérgio. Perfeito.
Vi também o Murilo —
que também não foi. Ele estava lendo quando cheguei sem chegar. Continuava paparicado
pelas garçonetes: Silvana, Kika, Renata, Alejandra. Nenhuma suspeitava das
tempestades sob os cabelos de nuvem. Murilo interrompeu a leitura para
acompanhar com os olhos algum decote que passava. A única coisa a tirar seus
olhos dos trilhos de um jornal inglês eram as notícias ao vivo, desfilando
entre as mesas.
Maíra mandou drinks de
cortesia. A melhor margarita do mundo. Já corri o México, Nova York, Londres,
Paris e demais rivais. Ninguém vence a margarita do Ministro Rocha Azevedo. O
Ministro, aliás, também não estava. Mas ao nos encontrarmos na saída do banheiro,
rimos muito. Não lembro mais do quê.
Heitor Dhalia pensava
em fazer cinema, Xico Sá era estagiário de Xico Sá, Caetano era casado, a irmã
de Petê Marchetti já era linda, Odete Roitman me confundia com um garçom e
pedia mais vinho, Chico Buarque cruzava a cidade apenas pelo purê com alho
poró, Paulão estacionava os carros que não existem, Tio David Drew Zingg
chegava tarde, mas chegava. Meu amor se fez de alegria; e o voal das cortinas
era inflado de brisa. Tudo isso naquela noite mágica de aniversário, há 18
segundos.
Se você for lá hoje,
vai me encontrar na mesma mesa, lendo este artigo. No Spot é sempre
quinta-feira. A mesma quinta-feira. Aquela que tinha cheiro de domingo, quando
a noite densa terminava brilhando na última taça emborcada e limpa, repousando
no bar.
Sete Ondas

Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em dezembro de 2011
Um bom desejo: entender as mulheres. Um desejo melhor ainda: morrer tentando.
Dos meus desejos desvairados, queria ser uma árvore, desde que fosse mangueira. Gorda, opulenta, olorosa, magnânima e magistral. Generosa, ampla. Tropical. Mangueira doce, exagerada, sensual. Mangueira mãe. Matriarcal. Ou então queria ser outra árvore, mais equilibrada: um coqueiro. Nada tem de elegante (alto demais, magro demais, com um penacho na cabeça) mas é pura elegância. Surpresa de coqueiro. Alegre durante o dia, solene durante a noite -- quando se enegrece mais do que o céu, e impõe sua negritude sobre o preto e enfrenta as tempestades. Um coqueiro jamais perde a compostura.
Ser também feliz, é claro. Mas de que modo? Não a felicidade dos que vencem, porque nunca vencem. Não quero espalhafate, nem dizer aos outros, nem fazer do meu pirão um caviar. Quero sim é comer pirão. Quero comer caviar.
Ter saúde. E se for para ficar enfermo, que seja uma gripe sem coriza, apenas a dorzinha por dentro dos ossos, dois dias de folga, uma boa febre debaixo do cobertor e alguém para trazer água de coco e perguntar se estou melhorzinho.
Queria ter algum vício que não me mate. Atividade física que não seja item de formulário. Defeito que me faça charmoso. A teimosia dos gênios. A impaciência dos gênios (o diabo é que conheço vários idiotas teimosos e impacientes). Que eu não seja idiota, meu Deus. Queria ler mais. Amar mais. Dormir mais. E cada vez que eu diga as mesmas coisas, que soe como a primeira.
Quero ver você no ano que vem. E no outro. Que possamos estar a sós, sem coisa melhor para fazer. Façamo-la.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Feliz 2012.
P.S.
“Então fica resolvido assim: depois nós resolvemos”, concluiu Fernando Sabino num P.S. de carta para Otto Lara Resende. Dezembro é o P.S. do ano, e o que não foi dito até aqui, até o dia 31 também não será. O ano vai se resolvendo, e empurramos o fusquinha de nossa razão para a sombra de 2012. Deixa ele lá; faz calor em dezembro.
Antes de janeiro chegar, vamos ver o que passa no Facebook das ruas, adiando o que nos é dado adiar. Há muitas compras e chopes e chuva para cair. Há muitas escolhas de hotel e opções de passeio e protetor solar para estocar. A realidade pode atrasar. Não liga ainda o Excel, mas clica lá no Twitter: vê se tem piada do frasista, link bom de algum amigo, fofoca de algum famoso, tubarão comendo surfista em foto espetacular. Adia. Enrola. Deve ter alguma coisa no YouTube, procura um almoço que dure até as três e quarenta. Mesa para quantos? Então volta e tuíta alguma coisa. Não deu RT? Espera. Pergunta se alguém topa o Pirajá, diz que está em SDU chegando em CGH.
Espicha, dezembro, espicha.
Faz um parágrafo inteiro só com três palavras. Espicha, tempo, espreguiça. Só faltam quinze dias. Põe esse restinho de calendário para voltear: Rebouças via Praça Campo de Bagatelle, chegando na Anhanha Melo pelo corredor Norte/Sul ligado na Radial Leste. Trava, dezembro, estanca. Cuida que já é tarde. Tem piedade de nós.
Encontra um livro para ler. Estica na padaria, puxa conversa com o homem da banca, pergunta pela saída da revista O Tricô Moderno. Procura pela revista O Tricô Moderno, vai ver tem nos sebos da Pedroso de Morais. Compra um CD do Vinícius (baixar é muito rápido). Inventa. Perde o crachá da portaria, enguiça a catraca, esquece o celular.
Usa de todos os truques, recorre ao quanto encontrar de bobagem. Relembra frases antigas, conselhos de março ou abril. Se essa vida for uma novela, haverá eco e câmera lenta. E um segundo durará dois. Todo tempo perdido é útil em dezembro — mês de conversa fora.
Lugar comum
Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em dezembro de 2011
Que coisa, gente, já é
dezembro. Esse ano voou, viu. Ainda ontem era março. Agora é ir desacelerando,
que ninguém também é de ferro. A gente passa o ano inteiro na luta, agora tem
que descansar, não tem? Ah, tem. Mas é isso mesmo, a gente reclama mas gosta. É
que nem meu pai dizia, melhor com trabalho do que sem. Vamos ver se o ano que
vem melhora porque 2011 foi duro, hein. Como teve desgraça esse ano! Foi crise
na Europa, aquela coisa na Síria, essa confusão dos estudantes, morreu também
aquele, aquele cantor, ai esse ano foi fogo. Muita correria. Falando nisso,
Natal tá aí. Correria em shopping, presente para família. Fila de
estacionamento, fila de restaurante. Fila, minha filha. Fila.
Dezembro é época de
almoço de firma, né. Vai achar mesa para 2o, vai. Mas é bom também, encontrar o
pessoal. Eu gosto. A gente dá risada, viu. E o calor? Eu não gosto muito não,
dezembro é muito abafado. Frio demais que nem julho, agosto, também é ruim. Mas
esse calorão de dezembro com a cidade toda travada. Cê viu que trânsito? Esse
ano eu levei 30 minutos quando antes eu levava 15, no máximo. São Paulo tá
demais. Onde isso vai parar, meu Deus? Quer dizer: parado já está, como diz o
outro. Imagina quando vier a Copa. Esse país não tá preparado, gente. Imagina.
Guarulhos para receber esse povo todo? Quero só ver. Guarulhos está parecendo
uma rodoviária, meu filho. Nunca vi. E quando passar o Natal, é todo mundo
querendo viajar na mesma hora. Passagem um absurdo e o aeroporto lotado. Que
crise o quê? O povão viaja.
É que o Brasil tá
crescendo muito, saiu até naquela revista americana. É a bola da vez, como
fala. O primeiro mundo na crise e a gente gastando, viajando. Esse país é
abençoado. Não tem terremoto, não tem furacão, água não falta. Faz pena é a
educação. Vou te falar, isso é uma geração perdida. Uma, não. Vinte. Outro dia
vi um carrão importado jogando bituca pela janela. Que horror, não? Depois diz
que é o povão que é mal educado. Mas, é isso aí. Ano novo tá chegando, vamos
pensar positivo.
Tomara que 2012 seja diferente. E vai ser, viu. Tem
que ser. Igual é que não dá. Senão vai ser aquele de já viu. Não é assim que
fala?
Poema
Na página 147
Do livro de João Cabral
O Recife é mais do que o que sobra
Da lama do rio da cidade
De sobrados
De pus
Na página 147
O Recife dá a medida de tudo
Fiat
Luz
Do livro de João Cabral
O Recife é mais do que o que sobra
Da lama do rio da cidade
De sobrados
De pus
Na página 147
O Recife dá a medida de tudo
Fiat
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