Anote

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo

2007. Eu estava em Nova York, e esperava abrir o farol. Então vi um casal de brasileiros tirando uma foto. Ela diante da escultura “Love” de Robert Indiana: as gigantescas quatro letras, em vermelho vivo, na calçada. A moça fazia uma pose enquanto o marido se entendia com a câmera. O farol abriu mas a foto não saía. Fiquei esperando para ver. Foi quando a mulher, sorrindo fixamente diante da palavra “AMOR”, gritou para o marido: “vai, caceta! Tira logo essa p...!”

1993. São Paulo. Mudei para um apartamento de 32 metros quadrados na Bela Vista. Era tão apertado que só cabiam móveis de duas sílabas.

1994. Eu só usava camisa xadrez de lã. Fosse o sol que fosse. Os colegas tiravam sarro, me chamavam de lenhador canadense (os braços fininhos melhoravam a piada), mas eu não desistia. Uma tarde, ao passar pela portaria, o zelador me chamou da escada: “Seu André!” Diga, Tatá. “O senhor só usa camisa listrada, né?”. Parei com aquilo no ato.

Contei tudo isso para dizer a você: tenha um diário. O melhor e o mais divertido de São Paulo ou Nova York acontece nestas brechinhas, pequenas demais para uma foto.
Se você, homem como eu, acha que diário é coisa de menina, não tenha um diário: faça um blog. Mas anote. Por mais idiota que possa parecer na hora. Depois, com o tempero da saudade, toda idiotice ganha o charme do passado.

Na minha estante guardo grandes diários (dos outros, portanto): Drummond, Saramago, Antônio Maria (engraçado e triste, mas difícil de achar), Katherine Mansfield, entre outros. Antonio Maria fez logo uma advertência: não vale escrever ali fazendo pose. E Eustáquio Gomes, no recém-lançado “Viagem ao centro do dia”, reconhece que escrever um diário é inventar, dentro da nossa própria vida, uma outra vida que queríamos levar. Ao selecionar os episódios que entram, e principalmente os que ficam de fora, estamos inventado um outro eu. Mais divertido, mais sensível ou até mais agressivo do que somos da caneta para fora.

Se você acha que não tem tempo, saiba que Churchill escreveu calhamaços nas horas em que não lutava contra Hitler. Se você tem um pouco mais de sossego que ele, acabou a desculpa.

Ao mesmo tempo em que insisto no seu diário, não sei para quê ele serve. Talvez para nos obrigar a pensar um pouquinho na vida, mesmo que isso esteja renegado às beiradas do dia, como diz o Eustáquio. Ou talvez sirva para a gente guardar alguma coisa que não seja dinheiro.

Por falar nisso, esta semana minha filha falou a primeira marca de seu vocabulário: Danone. No mundo de hoje, isso deve valer algum dinheiro. Não sei ainda como cobrar. Mas, por via das dúvidas, já está anotado na caderneta.

4 comentários:

Eduardo Luz disse...

André, eu gosto bastante das tuas crônicas. Acabei de ler a do Guia do Estadão, peguei o endereço do teu blog e falei: vou escrever pra ele ! Eu também, de uns tempos pra cá, tenho a mania de escrever diários sobre , por enquanto, coisas específicas : viagens em família ( eu, minha esposa e minha filha) e uma reunião semanal que nós chamamos de confraria que versa sobre comidas e bebidas. Neste segundo tema, segui o seu conselho e montei um blog, o Da Cachaça pro Vinho onde estas reuniões estão sendo postadas cronologicamente ( começaram em 2003 e já são mais de 180). Sabe que é bom mesmo pois como você mesmo escreveu, pra que serve exatamente eu não sei mas que é bom, é. E quem sabe se eu quizer lançar um livro um dia ( se é que este ato não cairá completamente em desuso), o rascunhão dele estará totalmente pronto. Um grande abraço e continue assim, bastante observador do cotidiano. Uma última coisinha : a observação da mulher tirando a foto diante da escultura LOVE é impagável... E tem mais uma coisa : posso linkar o teu blog lá ?

Janyele disse...

Oi, nem sei como te explicar como achei seu blog, mas como boa apreciadora de leitura, gostei muito do que você escreve. Você screve muito bem, parabéns!
Não li suas crônicas "do Estadão" como comentaram os outros mas quando for possível vou procurá-las aí pela net...
Se não se importar vou colocar seu blog nos meus favoritos...
Valeu.
=]~

Anônimo disse...

Ok, André: me dá o endereço do teu blog secreto que eu te dou o do meu.

Del Bibi

p.s.: desistiu daquele papo?

Eu não sei, você sabe? disse...

ISso mesmo André, exatamente pelo motivo que vc escreveu no penúltimo parágrafo meu blog chama: Eu não sei, você sabe?

Seus textos são sempre um arraso!