Aeromoça

Publicada no Guia em O Estado de S. Paulo
Quando era criança, minha mulher queria ser aeromoça. Nas viagens de volta das férias, vi que esta vocação aponta uma série de características. Digo características, e logo me arrependo. É uma palavra neutra. Aeromoças têm qualidades, mesmo que pareçam defeitos.

A primeira é ser a um só tempo dura e doce. Ambas palavras de duas sílabas, começadas com o mesmo D, intercaladas pela sensualidade das vogais. No mais, são palavras díspares, de universos quase opostos, mas reunidas novamente no coração de quem anda sobre as nuvens. Aeromoças podem ser amáveis – sorriem porque alguém lhes pede guaraná. Há motivo mais singelo para a alegria? Mas o batom que ri ao ouvir “light, por favor” é o mesmo que pede com ríspida firmeza que o executivo desligue o celular. O homem atarefado, que dá ordens de gravata e penteia o cabelo diversas vezes ao dia, no entanto, não ousa ignorar seu mando: ele desliga. E os demais olham para ela como crianças temendo a professora.

Mas nem todas as aeromoças são aeromoças. Um sorriso além da conta, ou uma simpatia automatizada, e logo elas vão para a bacia das almas onde vivem os atendentes da Blockbuster dando boa noites efusivos a todos que entram. Ao demonstrar os procedimentos de emergência, a legítima aeromoça não sorri demasiado. Há que manter um leve ar de gravidade, condizente com o assunto. Mas nada tão taciturno que faça a senhora neurótica da poltrona 5C achar que, daquela vez, é bom prestar atenção.

Os comissários de bordo não têm este charme. Em lugar de aeromoços, são comissários – um título próximo de cargo público e aborrecido. Não sorriem tanto, e têm certa dificuldade em manusear embalagens de suco.

Minha mulher é uma aeromoça, mesmo sem ser. Cuida de todos com gestos de delicada atenção. Por exemplo, voltamos de férias e logo tive que viajar novamente, a trabalho. Quando cheguei no hotel, saudoso e cansado, abri a mala e descobri um presente, colocado ali sem que eu soubesse. Minha doce aeromoça. Rasgo o pacote lustroso. Livros. Na dedicatória, vi que eram oferecidos a uma amiga dela, que mora na cidade aonde fui. Estalo! Ela havia dito que mandaria algo para a amiga, de lembrança. Não telefonei para casa contando o acidente. Aeromoças passam de um pólo a outro sem demora nem fuso horário. Em lugar disso, embrulhei-os em um papel pardo e deixei no endereço da amiga.

Ela há de notar o embrulho tosco. E vai perceber que a linda aeromoça casou-se com um comissário incompetente.

2 comentários:

Marco Bezerra disse...

Maravilhoso o texto. O melhor até agora. Te entendo completamente. Vai ver foi por esse motivo que gostei tanto.

Meio Aéreo disse...

Muito bom o texto mesmo!

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