Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo, em janeiro de 2011
Este ano, minha vida em São Paulo atinge a maioridade. Moro há 18 anos aqui e agora a experiência está capacitada para os atos da vida pública. O primeiro ato de interesse público remonta ao meu primeiro ano: a saga de alugar um apartamento.Na suíte pegajosa do pequeno hotel na Praça Roosevelt, onde me hospedei até que encontrasse uma casa, circulei um único anúncio de um quitinete em Pinheiros. Até os números faziam sentido: ficava no sétimo andar. Perfeito. Eu trabalhava no sétimo andar da agência de propaganda, havia morado por anos no sétimo andar do edifício em Olinda, e agora continuaria a ter o 7 como parte fundamental da vida. No ônibus até o prédio fui elaborando a teoria.
Em poucos minutos corri o apartamento (“corri” é modo de dizer, era tão pequeno que só era possível andar ali dentro) e tomei a decisão. Na frente do prédio havia um orelhão. Liguei imediatamente para a imobiliária e disse: “Já posso tirar a placa de ‘Aluga-se’ da grade?” Uma voz sonolenta me informou que havia 8 pessoas interessadas no imóvel, duas delas já tinham inclusive entregado a documentação. Como? Exatamente. 8 pessoas na frente. “Se ao menos fossem 7”, pensei.
Nas semanas seguintes, vi inúmeros outros imóveis. Abri o leque de bairros. Baixei critérios, aumentei o orçamento. Nada. Todos os que encontrava já tinham propostas em negociação. Fiquei desconsolado. Saí do hotel, fui morar em casas de amigos. Atrapalhei casamentos. Olhava cada janela com admiração desmedida: ali havia um vencedor de corridas. Lembro que num final de tarde triste, peguei meu caderninho onde anotava os endereços e subi ao Terraço Itália. Fui olhar o infinito mar de prédios por todos os lados apenas para ter esperança: um há de haver. Um.
Houve. O de uma amiga pernambucana que estava voltando para o Recife. Senti que, de certo modo, eu roubava no jogo. Nem precisei usar o fiador, nem o surrado envelope pardo em que guardei por meses os documentos necessários. Era uma quitinete na Alameda Ribeirão Preto, na Bela Vista. O ribeirão era de asfalto, a vista não era bela. Tinha 32m2. Mas era meu. Meu primeiro palácio.
