Placas

Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo, em dezembro 2010
A praia de Japaratinga não me decepciona. Não falo dos quilômetros de coqueiros enfileirados rente à estrada, nem do tom azul esverdeado ou verde azulado do seu mar, ouriçado aqui e ali pelos corais na flor d’água, nem das piscinas naturais, nem da sua gente. Falo das suas placas.

A cada ano, uma nova placa entra para minha lista de melhores. Ano passado, na estrada que corta Japaratinga ao meio, havia um bar. E sua placa: “Cuidado. Travessia de bêbados”. Agora, vi que retiraram a placa. Soube que foi objeto de protesto de uma associação religiosa, e lá se foi o aviso que poupava vidas.

Mas se esta sumiu do mapa, outra entrou. Está logo depois da divisa entre Pernambuco e Alagoas. Cruzamos a ponte que separa os estados e pegamos o retão. No meio do nada, vejo uma placa gigante do lado esquerdo da pista. Amarela, quadrada, letras pretas e urgentes: “Proibido olhar para o lado direito!” Impossível ignorá-la. E impossível não olhar para onde ela roga, ou melhor, grita que não se olhe. E o que há do lado direito da pista? O Restaurante da Mara. Um, dentre as centenas de restaurantes na beira daquela estrada. Mas desse eu sei o nome, e você também. Tudo por obra de uma placa.

Mais adiante, chegando em Tatuamunha, o comércio de Seu Amaro também já fez uso do gênio que aparece nas placas. O filho dele tinha comprado um doce novo para a vendinha, enfeitiçado pela lábia de um fornecedor de fora. Mas deu errado: os turistas e os vizinhos preferiam mesmo a tradição dos bolos de goma, do mel de engenho, das passas de cajú. A novidade enlatada juntava pó. Seu Amaro resolveu o assunto com uma placa. Fez uma pilha das latinhas, bem na entrada da loja, e pôs a placa no topo: “Apenas duas latas por pessoa”. Em uma semana venderam tudo.

E no povoado do Laje, onde vive o peixe-boi, está outra placa milagrosa, na fachada da casa de Paloma Vergas. Com nome e talento de costureira, Paloma vende mudas de plantas e faz modelitos de arrasar quarteirões. Cobra pouco por maravilhas. Acima de sua porta, lê-se: “Tudo por amor”. Não há um turista paulista que não lhe pague o dobro. Esse povo de Japaratinga sabe se comunicar.