Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em fevereiro de 2011
Barômetro, barítono e balneário eu já conhecia. A primeira aprendi no colégio. A outra, no Coral São Pedro Mártir. Balneário aprendi onde se deve, em Camboriu. Mas barista, essa eu aprendi há pouco tempo.Para quem não gosta de café, agora é o vai ou racha. Café virou sofisticado como vinho, charuto, cachimbo ou queijo. Toda a mise-en-scène chegou com mala LV e cuia da Spicy. Existem lojas dedicadas, maquininhas com trique-triques. Variantes de sabor, força, moagem e árvore genealógica. Tem café com avô africano e bisavó das Arábias, com breve passagem pela Itália, quando se apaixonou por um imigrante ilegal colombiano, viajando escondido em containers de carvalho.
Eu não gosto de café. Mas gosto de querer gostar. A vida seria mais fácil. Todo lugar serve café. Toda visita bebe — e elogia. Grandes questões são debatidas em torno de uma xícara. Acho até a bebida bonita, preta como ébano. Rara como um mármore quente. Ou um espelho em estado líquido. Além de metáforas, já fiz de tudo para gostar de café: tomei sem açúcar, para ser exótico. Provei as bisnaguinhas mais excelentes (sim, os cafés agora vêm em discos gordinhos de papel colorido): escolho as cores que menos saem, para testar os extremos da coisa. Nada.
O único jeito é tomar um copo de leite com uma pontinha de café fraco, só para quebrar o branco. Estou pensando num nome italiano para isso mas ainda não veio. Preciso então descrever as quantidades exatas para todo mundo que me pergunta: “quer café?” Seria tão mais simples dizer: “Sim, vê um latte macchiato” e todo mundo saberia na hora do que se tratava (eu nem precisaria advertir que latte macchiato é diferente do caffè latte, que é diferente do caffè macchiato). Mas latte macchiato leva espresso. E isso já é café demais para mim.
Outro dia fui na Starbucks para admirar os vocábulos. Aqui não tem as garrafinhas geladas de Mocha (por favor, não pronuncie “moxa”. É como o bairro, “móca” — só que mais chique). O máximo que consegui comprar foi a caneca.
Para escrever este texto, tarde da noite, a companhia ideal seria café. Peguei minha caneca, e enchi de refrigerante preto. Escrevo ao som de mil bolhinhas, que chiam e estouram como cigarras contra as paredes da louça. Uma delícia.
