Bonito, hein?

Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em Abril de 2011
“Nada precisa ser feio”. Estava escrito num cartão de uma loja de móveis caríssimos. Sobre preço, o cartão nada dizia. Um silêncio tático; e elegante como os sofás e cadeiras de design sueco. Falar de detalhes mesquinhos como dinheiro pode ser feio, mesmo que o cartão fique logo ao lado do caixa.

A beleza tem truques. Poucas árvores são mais lindas do que uma cerejeira. É de médio porte, e suas muitas flores brancas povoam os galhos como pequenos flocos de neve rosada. Mas a palavra “cerejeira”, que diante da árvore recupera seu sentido, para mim está mais associada a móveis baratos, desses gritados em comerciais de varejo, coisas simples “com acabamento em cerejeira”, como se isso as fizesse saltar da banalidade para o mundo do mogno ou do marfim. Ouvi muito a frase “acabamento em cerejeira” no fim dos anos 80. Desde lá “cerejeira” está logo ao lado de “acaju” em elegância. Aliás, o tom acaju está para os cabelos como o tom goiaba está para os ternos de linho. Ambos existem, é verdade. Mas para o deleite ainda não se sabe de quem (nunca vi um cidadão de terno goiaba que não estivesse suado. Se você vai suar, meu amigo, escolha um terno que atenue — não um que reforce o estado calamitoso). Até outro dia, eu também implicava com terno cinza. Achava opaco e sem personalidade. Até que comprei um, convencido pelo vendedor de boa lábia. Quem sabe um dia eu não esteja fazendo sauna num terno goiaba?

Nem tudo que é bonito precisa ser caro. E ser caro não é garantia. Já fui sozinho a muita loja bacana e consegui escolher o que lá havia de mais feio. Pode ser roupa, sapato, corte de cabelo ou almofada. Eu tenho o dom de errar. E o pior, eu sei que estou errando. Mas na hora algo me faz pensar: “eu vou dar um jeito. Esse verde limão vai combinar com alguma coisa”. Chego em casa, minha mulher olha e balança a cabeça. Na semana seguinte, vamos juntos trocar.

Claro, tem quem goste do terno goiaba, do acaju e até do Minhocão (lembre-se, existe quem goste da estátua do Borba Gato). Mas estes, em lugar de desmentirem a tese da beleza como fundamental, dão ainda mais força a ela. Afinal de contas, quem ama o feio bonito lhe parece. Viu? Ninguém ama o feio.