Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo, em Março de 2011
Eu estava em Cambury quando vi pela primeira vez. Quase não acreditei. Era um picolé da Apple. Se Steve Jobs fizesse o i-ice cream, seria daquele jeito. A embalagem era impecável, linda, minimalista e — surpresa! — não tinha um desenho de morango ao lado da palavra "morango" para ninguém se confundir e achar que era, quem sabe, de "manga"(começa com M e tem G no fim. Melhor não confiar, desenha o morango). No lugar de clichês, apenas um urso simpático. E mais nada. Restava saber se era gostoso. Era delicioso.Amei o picolé Diletto. Para piorar minha inveja (tudo que é bem feito no mundo me dá inveja), descobri que um dos sócios é um colega publicitário. Ah, não dá! Por que ele, e não eu, conseguiu ser Steve Jobs fabricando picolé? Cheguei em São Paulo e a primeira coisa foi telefonar para ele. A secretária achou que eu era gago, pois ainda tinha o de gianduia derretendo na boca. Esculhambei: disse a ele que não se faz uma coisa dessas, caprichar tanto assim só para incomodar as pessoas, que além de lindo não precisava ser bom, que na vida não se pode ter tudo e tal. Ele ouviu com paciência. Deve estar acostumado.
Então me contou do trabalho que dá fazer bem feito, e isso me confortou um pouco (tudo que dá trabalho não me dá inveja). Lembrei de uma história do pintor José Cláudio, que estava num convento de Minas e inventou de levar para o Recife uma cabeça de bode que achou por lá. Ia de ônibus até Pernambuco com a cabeça de bode. Um dos padres foi fabricar uma caixa de madeira para o transporte. José estava atrasado, em vias de perder o ônibus, e o padre não terminava a embalagem. Aflito, José foi até a oficina do convento apressar o homem. Chegou lá e viu o padre se esmerando na caixa. Media, anotava, media de novo. José interrompeu: "Seu Padre, não precisa caprichar. É só para levar a cabeça do bode..." O padre interrompeu o pintor: "Mas eu não estou fazendo isso para você. Tudo que eu faço é para Deus. Se é para Ele, tem que sair perfeito".
Eu não sei se meu amigo faz o Diletto para Deus (acho que não, pois ele cobra pelas oferendas). Mas se você quiser transportar alguns para casa, a caixa para levar já está pronta. E o pior: é bem feita também.
