Publicado no guida Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em maio de 2011
Não vou falar da Fórmula Indy, da vitória do Flamengo, da chuva de sempre. Por uma razão simples: não estou nem aí. Ou seja, estou aqui. Depois de 18 anos vivendo como um paulistano de Olinda, vim buscar outras raízes. Vim morar em Londres, onde sou pernambritânico.É a primeira vez que moro fora do Brasil, tirando 6 meses que passei na Escócia, quando ainda era adolescente e dava aulas na Cultura Inglesa. Naquela época, a família era emprestada. Dessa vez, trouxe a minha.
Em certos dias me pego pensando se faria em São Paulo tal ou tal coisa que faço aqui. Como um piquenique no parque, por exemplo. Vejamos nossa listinha paulistana: tem parque? Tem. Tem comida? Tem. Tem céu azul e pensamentos banais de “nossa, como o verde dá um respiro, gente”? Tem. Então por que vivi 18 anos aí sem fazer piquenique?
As respostas mais se parecem com desculpas. O metrô daqui é mais prático (mas aí tem táxi — já que estacionar carro no Ibira em fim de semana bonito é pior que descer para praia em fim de semana bonito). Você fica mais despreocupado com as crianças no Hyde Park (claro, claro: se elas se perderem todo mundo em Londres vai entender português, principalmente o chorado). Ah, mas os cookies, as geléias, os mil tipos de iogurte que existem aqui (tem troco: pão de queijo, paçoquinha, requeijão. Tudo bem que a palavra “requeijão” desanima qualquer ideia de piquenique e imagens de farofa vem à mente. Ok, sai o requeijão).
E a resposta certa logo aparece. Quem mudou não foi a cidade. Foi a lista de coisas que você faria. Passear a pé é programa em qualquer lugar do mundo. Assim como andar de patinete, ir a museu ou ficar mais perto dos filhos. Piquenique então, nem se fala. Tudo isso Londres nos deu, além de outras coisas que nem podíamos imaginar. Mas as melhores foram as que já estavam aqui dentro, e a nova cidade só teve o trabalho de desembrulhar.
Ao trocar de cidade, troquei um pouco de André. Esse é mais pedestre, lava louças e conta histórias para as filhas. Não sei se a menor já está aprendendo inglês, ou se percebeu as diferenças em mim. Sei que aqui ela só chama esse pai mais amigo e presente de “daddy”. E eu acho lindo.
