Hoje é ontem

Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em junho de 2011
Você tem um palácio? Estou construindo o meu. É de graça. Chama-se Palácio da Memória, e é uma técnica de memorização na qual você imagina uma casa, um quarto ou uma rua e vai colocando ali tudo o que deseja recordar. Depois — aí é que são elas — é só lembrar onde você guardou tal ou tal coisa, e ir lá no seu palácio buscar.

No hall de entrada do meu, uma TV mostra o Sílvio Santos sempre dizendo “Aguarrrrdemmm”. Crianças usando moletons de cetim azul claro ou amarelo ovo sentam em cima de balões para estourá-los.

Avance. Vamos entrar na sala. As portas à esquerda dão acesso à sala de visitas, onde repousa um aquário com Kikos Marinhos. Na parede oposta, um 3 em 1 Gradiente toca uma fita Basf laranja e preta. A caneta Kilométrica no chão, simpática e de preço milimétrico, escreveu “Menina Veneno” no lado B da fita.

A sala tem ligação com a cozinha, onde Tia Nastácia toma um susto com o Minotauro na janela. Ofélia prepara alguma receita de classe média, enquanto comenta para si: “a turma gosta, viu amiga”. Ao lado do fogão, um saco de Mandiopã aguarda o começo de O Homem de 6 Milhões de Dólares para ser servido.

Na larga escadaria que dá acesso ao andar de cima (é um palácio), Fernanda Montenegro e Paulo Autran atiram comida um no outro durante o café da manhã. Não é a novela, é uma eterna reprise da cena no Vídeo Show. Vamos subir. Logo que chegamos ao quarto de hóspedes, vemos José Sarney com a faixa no peito, se hospedando na presidência ao som de Coração de Estudante. Na parede do quarto, Antônio Britto exibe um ar grave.

O resto da casa ainda está em obras. Quase todas, obras televisivas. Hoje, no entanto, dia 1º de junho, interrompo a construção para inaugurar outra. Não um palácio, mas um museu. É o Museu de Mim, que descobri no Facebook e no Twitter. É lindo. Tem todos os meus amigos, tudo que eu curti, minhas palavras favoritas e vídeos de Youtube. Nada, nada de nada, de televisão. E para marcar ainda mais seu frescor, mesmo na internet e no próprio momento em que foi lançada, a novidade já era um museu. Hoje é sempre ontem.