Caricatura

Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em julho de 2011
Eu preferia uma caricatura do Cássio Loredano a um retrato fiel de mim. Loredano transforma defeitos em elegância, e na sua galeria só entram homens de vulto. Meu vulto é de sombras, quando faz sol. Ai de mim: vim morar debaixo de céu nublado.

Semana passada, conversando com um alto executivo de Beirute durante um coquetel, ouvi uma caricatura do Brasil. É uma história linda, que encheu de alegria a taça meio vazia do meu vinho rosé.

Bechara Mouzannar estava no Rio de Janeiro a passeio. Era um sábado à noite. Com apenas R$ 40 no bolso, Bechara passou em alguns caixas eletrônicos sem ter muita sorte. Alguém que precisa ir a caixas eletrônicos na noite de Copacabana já devia saber que está sem sorte, além de estar sem dinheiro.

No último caixa, ele notou um grupo de quatro ou cinco homens que se aproximava. Não precisou deduzir. Um deles puxou a faca. Os outros o cercaram. Bechara explicou em inglês que não tinha dinheiro. Mostrou a carteira vazia, apelou para o clássico gesto de esticar para fora o forro dos bolsos. Ofereceu os únicos R$ 40 que tinha. Pelos olhares dos homens, viu que não acreditavam. O tom de voz subia. Ele pedia desculpas. A situação era grave.

De repente, sem saber como nem porque, Bechara começou a cantar em voz alta. Num português perfeito, entoou a canção que sabia de cor: “A felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor...” Não cantou um verso, ou dois. Cantou a música inteira. Os olhares de ameaça tornaram-se de espanto. E depois, de alegria. O ladrão guardou a faca. Os outros bateram palmas, dançaram e emendaram o bis do verso final “e cai como uma lágrima de amor”.

No fim, deram muitos vivas e abraços no Bechara. Ele ofereceu novamente os R$ 40. Mas o bando não aceitou. Fizeram como os amigos: empurraram de volta o dinheiro no bolso dele. E foram embora.

Bechara acredita que sabe o truque da mágica. A canção é de pobres e negros, da favela; vem do Orfeu da Conceição. Achei melhor não desmantelar sua ideia de que os marginais hoje em dia sabem de Orfeu, ou de Vinicius. E, afinal de contas, essa ideia deixa a caricatura mais gentil. Nosso nariz de Pinóquio nem fica tão mal assim.