Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo, em julho de 2011
Você já baixou Gilberto Gil? Baixei hoje, em meu terreiro de Cupertino. Até aqui, Cupertino era a cidade mais cool da Califórnia, onde a Apple inventa e desenha seus produtos. Depois que baixei o app do Gil, Cupertino virou nome de cidade do interior da Bahia. Gilberto Gil veio morar no meu iPhone.Ele chegou e vou fazer a louvação. Vivi alguns anos no Ceará, logo depois de ele ter voltado do seu exílio inglês. Gilberto Gil era uma voz alegre que tocava no toca-fitas de uma Brasília branca, e era a trilha de um tempo também alegre. Em que Brasília era apenas um nome de carro. Pente Fino, um amigo da família, era quem gravava essas fitas. Um pirata da Praia do Futuro.
Eu andava de roda gigante e não tinha medo. Domingo no Parque era como aquele tempo, sem cheiro de passado.
Em São Paulo, onde Gil foi trabalhar na Gessy Lever, fui viver muito depois. Quando tinha saudade de casa, ouvia um disco seu. Saiu uma caixa prateada, caríssima, com todos os discos. Comprei. Era um álbum de fotografias, com música no lugar de cenas. A caixa era meu baú.
Depois mostrei o que significa o São João para minha mulher gaúcha. No cinema, Gil nos pegou pela mão e levou para a beira da fogueira. Eu nem gosto de São João, porque não sei dançar forró. Gostei mais daquilo, que conheci de mãos dadas com a moça mais linda do Brasil, na sala escura do cinema: teve música de São João, cheiro de São João, comida e jeito de São João. Mas não teve humilhação: não fui obrigado a dançar. Saí feliz. Letícia é alegria. Gil é sorriso.
Agora moro em Londres, uma cidade mais gentil comigo do que foi com ele. Tentei fazer um reparo, e dei aos tijolos apressados na janela do trem uma canção cheia de abraços.
Hoje, no trem de volta para casa, vi que lançaram o app do Gil. Baixei, e pude ver suas fotos, biografia, todas as canções para ler e ouvir, notícias suas. Um reencontro daquela história com essa cidade, daquele tempo com este. Do pirata da Praia do Futuro com o MP3 legalizado. Da cibernética no aeroporto de Manaus com a tecnologia de Cupertino.
Eu carrego Gil no bolso. E sua voz carrega tudo isso, nossa vida e nossas cidades sem cheiro de passado.
