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Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em agosto de 2011

Quando tinha 14 anos, fui pela primeira vez aos Estados Unidos. O Brasil da época era um país do interior, com quatro marcas de carro e quatro estações na TV. Olinda, tadinha, tinha ruas de barro.

Chegamos em Miami, o posto mais avançado da civilização para o menino. Entramos em um supermercado. Quando reparei na primeira prateleira, exclamei: “Olha, pai! Aqui eles também têm Colgate!” Não entendi as risadas.

Eu evoluí — mas minha bestagem, não. (Parênteses. Ano passado, estava conversando com um recém-conhecido na porta da Mercearia São Pedro, na Vila Madalena. Do nada, o cara interrompe um assunto e pergunta: “Tu é do interior, não é?” Sou de Olinda, respondi. “Logo vi”, ele disse. “Quem fica de braços cruzados com as mãos debaixo dos sovacos só pode ser matuto”. Eu vivo de braços cruzados. Eu penso de braços cruzados. Eu entendo o mundo de braços cruzados, como na primeira epístola de São Paulo, o apóstolo que virou cidade. Fecha parênteses).

Estive semana passada em Santiago de Compostela, onde estão os restos de outro apóstolo, Thiago. Ao chegar lá, voltei ao supermercado de Miami.

Olhei as ruas de paralelepípedos, as palavras em gallego, as reviravoltas gordas e gastas nas fachadas de igreja, os sinos ao cair da tarde, o bando de velhos com óculos de lentes esverdeadas. Voltei aos anos de Colégio São Bento, aos genuflexórios rangendo sob os joelhos, às casas de arquitetura conhecida e brasileira, ora olindense, ora baiana, ora mineira. Gente orando na capela do Santa Cecília, no Ceará. Hinos católicos. Cacos de som. Sombras de ruas gaúchas. Aquela cidade espanhola pestanejava partes diversas de um Brasil particular. Coisas que não vão juntas, nem no tempo nem no espaço, eram relâmpagos de cada esquina. Como num sonho em que o quarto de dormir abre para um parque e a casa da vó dá portas para o escritório cujo corredor é o Shopping Center.

De súbito, o clarão. O que achei que fosse meu — e só meu — é antes e principalmente dos outros. Minha identidade é emprestada, e tudo o que vivi é importado. Procurei meu pai para novamente dividir o espanto: “Olha, pai! Aqui eles também têm minha infância!”