Segredos


Publicado no guía Divirta-se, em O Estado de S. Paulo em outubro de 2011

O homem diz à namorada: “Olha, decidi uma coisa. Vou contar para você o que eu nunca sonhei em contar para ninguém na vida”. Ela diz: “O que? Aquela história do que você fez na guerra?”. O homem fica parado: “Como é que você sabe?”. Ela continua: “Quando você estava na Itália e matou um fugitivo? Você já me contou”. E ele: “Peraí. Quando?”

Todo mundo tem segredo. Felizmente, todo mundo conta. Falando nisso, por favor, não espalhe para ninguém, mas esse primeiro parágrafo aí em cima é a abertura de um livro de Elmore Leonard. Que eu queria ter escrito. Pronto falei.

#prontofalei, inclusive, é um dos tópicos mais comuns no site de miniblogs Twitter. Uma rápida pesquisa e se lê coisas do tipo: “Eu curto homem”, “Quero voltar para Goiânia” ou “Vou liberar o Chuck Norris que existe em mim”. (Acho feio escrever “site de miniblogs Twitter”, mas preciso ser mais claro para aqueles leitores que não conhecem o Twitter. Aliás, como estava o tempo lá em Marte? #prontofalei).

Voltando ao tema. Segredo bom é segredo dos outros. Por isso, outro passatempo divertido, que transforma você num estagiário de padre em confessionário, é ler os postais do www.postsecret.com. Um site que publica postais anônimos com segredos escabrosos. Meus favoritos: “Só dou esmola quando tem alguém olhando”, “Gosto de ficar amigo de quem eu tenho inveja”, “Eu leio e-mails dos meus ex-namorados diariamente”. O sucesso é tamanho que o projeto já virou três livros, um site com 470 milhões de visitas e até um aplicativo para iPhone.

Acho que parte desse sucesso é ver nos outros segredos que são também nossos. Pensamentos tão mesquinhos que dá vergonha contar até para a gente mesmo. E, de repente, um deles já estava lá, num cartão postal. São retratos de paisagens feias, de um Cubatão interior que o CVC da nossa consciência não nos deixa visitar. Mas eu sempre olhei a fumaça de Cubatão com certo encanto: olha lá, uma fábrica de nuvens! Dá prazer ver que nossas doenças são sinais de normalidade. Como disse Chekov: “tudo o que sei sobre a natureza humana aprendi comigo”.

E, para terminar, um segredinho: toda pessoa que cita Chekov quer parecer mais inteligente do que é.