É gol


Publicado no guia Divirta-se, em O Estado de S. Paulo, em novembro de 2011

Já fui um grande goleiro. Sob meu ponto de vista, é claro. Ei-lo. E que seja também o seu: qual é a alegria do futebol? O gol. Que faz um bom goleiro senão propiciar a maior alegria do futebol? Pois é: eu fazia gols. Não como o Rogério Ceni, que se transveste de atacante para cobrar faltas e trai, sem vergonha ou cerimônia, a condição de arqueiro. Eu fazia gols sem sair do gol.

Numa única partida, deixei a bola entrar 26 vezes. Rua Casa do Ator, noite mágica. Até meu próprio time ria. E depois, entre gargalhadas, tomávamos a melhor cerveja, com a sensação do dever cumprido.

Como tudo na vida, estudei a respeito. Li livros com fotos sobre como segurar a bola, como fechar o ângulo na saída do gol, como socar a bola em escanteios, etc. Depois, apareci no treino do Colégio São Bento com equipamento impecável. Camisa azul combinando com detalhes nas luvas, chuteiras, meião. Marquei os passos entre as barras, medi o meio do gol, fiz mandingas chutando a base de cada trave e benzendo-me após tocar um punhado de terra no centro da pequena área. Eury, o goleiro titular, tremeu. O primeiro chute do treino passou por entre minhas pernas.

Não era esse meu plano. Na garagem da casa da avó, excedi-me em laboriosos exercícios com a ajuda do primo Marcílio. Ele chutava a bola com capricho e analisava minhas defesas meticulosamente, e dava notas usando a imprensa como gabarito. Uma defesa reles teria foto nas páginas internas da Gazeta de Caruaru. Algo mais caprichado — uma ponte, uma ponta de dedos com mão trocada — talvez ganhasse a primeira página do Diário de Pernambuco. Mas a ambição maior era mesmo a capa da revista Time (leia-se táime, não time). Consegui quebrar meu braço esquerdo buscando a capa da Time. Em recompensa, recebi o apelido de Dasayev, o grande goleiro russo da copa de 1982.

Anos depois, em São Paulo, ganhei uma camisa da seleção assinada por Pelé. Tive o luxo de escrever o texto que gostaria ver na sua caligrafia: “Para Dedé, o maior goleiro do Brasil”. Ele concordou. Vesti a camisa e mandei a foto para Marcílio. Minha avó imprimiu e colou na porta do quarto.

Pelé — o maior jogador da história — nunca fez um gol em mim. Pena. Não lhe dei esta alegria.