Spot


Publicado no guia Divirta-se em O Estado de S. Paulo em janeiro de 2012

Eu não fui mas estava lá. Se nunca faltei, não seria agora. Por mais de 10 anos, as noites de quinta-feira me encontravam irremediavelmente jantando à mesa 31, encostado no vidro. Guardo até hoje uma das plaquinhas de cartolina: Reservado - Murilo. Não me chamo Murilo, bem que eu queria.

Claro que não faltei à festa de aniversário do Spot, mesmo não tendo ido. A noite criança fez 18 anos; noite maior. Fui carregá-la nos braços. Sem ter ido, vi o Sérgio chegando com seu sorriso de quem acabou de fazer o que não devia. E respondi, como sempre, à sua pergunta eterna: “estava tudo bem?” Sérgio não quer saber como vai, mas como foi. Tudo bem, Sérgio. Perfeito.

Vi também o Murilo — que também não foi. Ele estava lendo quando cheguei sem chegar. Continuava paparicado pelas garçonetes: Silvana, Kika, Renata, Alejandra. Nenhuma suspeitava das tempestades sob os cabelos de nuvem. Murilo interrompeu a leitura para acompanhar com os olhos algum decote que passava. A única coisa a tirar seus olhos dos trilhos de um jornal inglês eram as notícias ao vivo, desfilando entre as mesas.

Maíra mandou drinks de cortesia. A melhor margarita do mundo. Já corri o México, Nova York, Londres, Paris e demais rivais. Ninguém vence a margarita do Ministro Rocha Azevedo. O Ministro, aliás, também não estava. Mas ao nos encontrarmos na saída do banheiro, rimos muito. Não lembro mais do quê.

Heitor Dhalia pensava em fazer cinema, Xico Sá era estagiário de Xico Sá, Caetano era casado, a irmã de Petê Marchetti já era linda, Odete Roitman me confundia com um garçom e pedia mais vinho, Chico Buarque cruzava a cidade apenas pelo purê com alho poró, Paulão estacionava os carros que não existem, Tio David Drew Zingg chegava tarde, mas chegava. Meu amor se fez de alegria; e o voal das cortinas era inflado de brisa. Tudo isso naquela noite mágica de aniversário, há 18 segundos.

Se você for lá hoje, vai me encontrar na mesma mesa, lendo este artigo. No Spot é sempre quinta-feira. A mesma quinta-feira. Aquela que tinha cheiro de domingo, quando a noite densa terminava brilhando na última taça emborcada e limpa, repousando no bar.